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Solidão em Idosos: Causas e Caminhos Possíveis

Mulher idosa com bengala olhando pela janela em ambiente silencioso.

Ao longo da vida, as relações familiares e sociais vão se transformando. Filhos que saem de casa, o contato com colegas de trabalho que diminui após a aposentadoria, amigos e parceiros que partem.

Essas mudanças podem modificar a forma como a pessoa se relaciona, se sente pertencente e percebe os próprios vínculos. Cada um atravessa esse processo de uma maneira. Em alguns casos, pode surgir um sentimento que merece atenção: a solidão.

A solidão é uma experiência subjetiva que causa sofrimento e pode surgir quando a pessoa percebe uma diferença entre as relações que tem e aquelas que deseja ter. Mais do que a quantidade de pessoas ao redor, o que realmente importa é a forma como esses vínculos são percebidos e se atendem às necessidades de proximidade, apoio e conexão.

É importante diferenciar a solidão da solitude. A solitude é o tempo sozinho escolhido e vivido de forma agradável: ler, cuidar de uma planta, ouvir música ou simplesmente aproveitar um momento de tranquilidade. Já a solidão envolve sofrimento. Estar sozinho não significa, necessariamente, sentir solidão. Da mesma forma, estar cercado de pessoas não impede que alguém se sinta solitário.

O que costuma levar à solidão no envelhecimento

A necessidade de se conectar com outras pessoas faz parte da vida humana. Quando essa necessidade não é atendida, a solidão pode afetar a saúde física e mental, além de interferir na rotina e no bem-estar.

Na velhice, algumas mudanças podem dificultar essa conexão: a perda de pessoas queridas, a saída dos filhos de casa, o fim da rotina de trabalho após a aposentadoria, limitações de mobilidade e perdas sensoriais, como a diminuição da audição.

Às vezes, o afastamento acontece de forma gradual. A pessoa sai menos, deixa de participar de atividades ou passa a ter menos momentos de convivência, como refeições em família, encontros e conversas que antes faziam parte da rotina.

A esses fatores podem se somar pensamentos e crenças negativas, como “não tenho mais nada a oferecer”, “se eu ligar, vou incomodar” ou “talvez não queiram conversar comigo”. Essas ideias podem levar a pessoa a recusar convites, deixar de procurar alguém ou evitar situações sociais, diminuindo ainda mais as oportunidades de contato.

Reconhecer esses fatores ajuda a compreender melhor como a solidão pode se desenvolver e quais caminhos podem favorecer o cuidado e a reconexão.

Como a solidão pode afetar quem envelhece

A solidão entre pessoas mais velhas é mais comum do que costuma parecer. Falar sobre esse sentimento pode ajudar a reconhecê-lo e a buscar formas de cuidado quando ele começa a afetar a rotina e a qualidade de vida.

Pesquisas mostram que a solidão persistente pode estar associada a maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental, como sintomas depressivos e ansiedade, além de alterações no sono, aumento do estresse e maior risco para algumas doenças crônicas, incluindo problemas cardiovasculares.

Isso não significa que a solidão, sozinha, cause essas condições, mas mostra que ela pode fazer parte de um conjunto de fatores que influenciam a saúde ao longo do tempo.

Há ainda um ponto pouco discutido: a forma como a sociedade e a própria pessoa enxergam o envelhecimento também pode influenciar essa experiência.

Crenças negativas sobre o envelhecimento podem afetar a maneira como alguém percebe a si mesmo, suas possibilidades e sua capacidade de continuar ativo. Estudos também mostram que essas crenças podem estar associadas a aspectos importantes da saúde ao longo do tempo, como memória, saúde cardiovascular e até longevidade.

Isso reforça algo importante: a maneira como pensamos e falamos sobre envelhecer não é neutra. Associar pessoas mais velhas apenas à fragilidade pode influenciar tanto a forma como são tratadas quanto a maneira como passam a enxergar a si mesmas. Refletir sobre o envelhecimento saudável também passa por questionar esses estereótipos.

Os benefícios do convívio social para o bem-estar

Pesquisas com pessoas idosas mostram que experiências sociais nas quais seja possível participar, contribuir e se sentir útil estão associadas a menor solidão, maior satisfação com a vida e mais bem-estar.

Não se trata apenas de “ocupar o tempo”, mas de vivenciar situações que tragam sentido, pertencimento e a percepção de que ainda há muito a compartilhar.

Grupos de convivência, projetos sociais, contato com a família e novas amizades podem, portanto, ir além de prevenir a solidão, fortalecendo vínculos significativos e contribuindo para uma melhor qualidade de vida.

Dicas para reduzir a solidão em idosos

Como a solidão pode ter diferentes causas, não existe uma única solução. Algumas pessoas precisam ampliar o contato social; outras precisam fortalecer relações mais próximas. Pequenos passos podem fazer diferença:

  • Cuidar da saúde. Manter uma alimentação equilibrada, cuidar da qualidade do sono, praticar atividade física e realizar consultas e exames de acordo com a orientação dos profissionais de saúde pode ajudar a preservar a autonomia, a disposição e a participação na vida social.

  • Manter momentos de encontro com a família. Um almoço, uma visita ou uma ligação podem fortalecer a proximidade e os laços afetivos.

  • Participar de atividades que deem prazer. Caminhadas, academia, esportes, jardinagem, artesanato, música, leitura, jogos que estimulem a atenção, a memória e o raciocínio, entre outras atividades, podem tornar a rotina mais ativa. Quando realizadas em grupo, também podem favorecer a interação, a troca de experiências e a criação de novos vínculos. Atividades de estimulação cognitiva também podem entrar nessa lista.

  • Participar de projetos sociais ou comunitários. Ensinar algo, ajudar alguém, compartilhar experiências ou atuar como voluntário pode fortalecer o sentimento de pertencimento, ampliar o contato com outras pessoas e aproximar quem tem interesses em comum.

  • Aproveitar espaços que já fazem parte da rotina. Igrejas, associações de bairro, clubes, grupos comunitários e outros espaços de convivência podem facilitar novas aproximações.

  • Prestar atenção aos pensamentos que levam ao afastamento. Quando surgir um “vou incomodar” ou “ninguém vai querer minha companhia”, vale se perguntar se esse pensamento realmente corresponde aos fatos antes de recusar um convite ou deixar de procurar alguém.

  • Relacionar-se com pessoas de diferentes idades. Além de manter vínculos com pessoas da mesma idade, também pode ser enriquecedor se relacionar com crianças, jovens e adultos. Essas trocas permitem compartilhar experiências e conhecimentos, ao mesmo tempo em que favorecem o contato com novas ideias, interesses e formas de ver o mundo. Relações entre gerações podem fortalecer vínculos e ajudar a diminuir estereótipos sobre o envelhecimento.

  • Usar a tecnologia como uma ponte. Chamadas de vídeo e mensagens ajudam a manter o contato quando existe distância, mas não precisam substituir os encontros presenciais quando eles são possíveis.

  • Praticar a autocompaixão. Ser gentil consigo mesmo, respeitar os próprios limites, não se comparar e não se criticar diante das mudanças que podem surgir com o envelhecimento também faz parte do cuidado. Olhar para essas mudanças com mais compreensão pode ajudar a manter a autoestima e uma relação mais gentil consigo mesmo.

Quando a solidão persiste e começa a afetar a rotina, a qualidade de vida ou a saúde emocional, buscar apoio por meio da psicoterapia para idosos individual ou em grupo, além de outros serviços de saúde, pode ser uma forma importante de cuidado.

Referências

ANTONELLI SALGADO, T.; CARVALHO, A. P. L.; PASSOS, I. C. (orgs.). Solidão: impactos na saúde e intervenções clínicas. Manole, 2026.

BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Artmed, 2021.

FERREIRA, H. G.; CASEMIRO, N. V. Solidão em idosos e fatores associados. REFACS, v. 9, n. 1, p. 90–98, 2021.

LEVY, B. Breaking the age code: how your beliefs about aging determine how long and well you live. William Morrow, 2022.

SANDY, P. A., Jr.; BORIM, F. S. A.; NERI, A. L. Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 39, n. 7, e00213222, 2023.