O envelhecimento pode trazer algumas mudanças na nossa cognição. Algumas pessoas, por exemplo, percebem que precisam de um pouco mais de tempo para recordar um nome, lembrar onde colocaram as chaves ou organizar uma informação. Isso pode ocorrer no envelhecimento normal e não significa, por si só, que exista um problema de saúde.
Ao mesmo tempo, nem toda dificuldade cognitiva deve ser atribuída à idade. Quando mudanças na memória, na atenção ou em outras habilidades começam a interferir de forma frequente na rotina e na autonomia, é importante procurar avaliação profissional.
O que é cognição?
Segundo Yokomizo et al. (2020, p. 9), “De maneira simples, cognição é a capacidade de o cérebro processar as informações que recebe do ambiente e dar uma resposta manifestada por meio do comportamento.”
A cognição envolve diferentes domínios cognitivos. Entre eles estão:
atenção: permite selecionar e manter o foco em informações relevantes.
memória: envolve registrar, armazenar e recuperar informações e experiências.
percepção: permite organizar e interpretar informações recebidas pelos sentidos.
linguagem: é utilizada para compreender e expressar ideias.
raciocínio: envolve compreender situações e encontrar soluções.
funções executivas: estão envolvidas no planejamento, na organização, na tomada de decisões e na adaptação diante de situações novas.
Essas funções cognitivas atuam de forma integrada. Preparar uma refeição, organizar compromissos, conversar, jogar cartas, aprender a usar um aplicativo ou planejar uma viagem são exemplos de situações que envolvem diferentes funções cognitivas.
Estimulação cognitiva, treino cognitivo, reabilitação cognitiva e neuropsicológica: qual é a diferença?
Estimulação Cognitiva
A estimulação cognitiva é indicada principalmente para idosos cognitivamente saudáveis, sem comprometimento cognitivo. Seu objetivo é estimular, fortalecer e favorecer a manutenção de habilidades como memória, atenção, linguagem, raciocínio e funções executivas.
Pode ser realizada individualmente ou em grupo. No formato em grupo, também favorece a interação, a troca de experiências e os vínculos sociais.
As oficinas são estruturadas, com objetivos definidos, e podem incluir tarefas para serem realizadas em casa. Essas atividades ajudam a reforçar o que foi trabalhado nos encontros e facilitam a aplicação das estratégias no dia a dia.
As oficinas devem ser conduzidas por profissionais com conhecimento sólido em neurociência cognitiva e gerontologia.
Treino Cognitivo
O treino cognitivo utiliza tarefas estruturadas e prática guiada para melhorar, fortalecer ou manter habilidades cognitivas específicas, como memória, atenção, raciocínio, velocidade de processamento e funções executivas.
Pode ser realizado individualmente ou em grupo e trabalhar uma única habilidade ou várias ao mesmo tempo, no chamado treino multidomínio.
Os recursos utilizados incluem lápis e papel, tarefas computadorizadas e diferentes tipos de instrumentos, como objetos e jogos manipuláveis.
O treino cognitivo é indicado tanto para idosos sem comprometimento cognitivo quanto para idosos com comprometimento cognitivo leve ou quadros demenciais em estágio leve.
Avaliações de acompanhamento são realizadas ao longo do tempo, com o objetivo de verificar a manutenção dos efeitos do treino.
Reabilitação Cognitiva e Reabilitação Neuropsicológica
A reabilitação é indicada quando já existe comprometimento cognitivo.
A reabilitação cognitiva pode trabalhar diretamente funções cognitivas comprometidas, como memória, atenção e linguagem, por meio de atividades individualizadas. Em doenças neurodegenerativas, porém, o treino direcionado apenas à recuperação dessas funções pode ter limitações, já que nem sempre a pessoa percebe melhora no desempenho, o que pode gerar frustração.
A reabilitação neuropsicológica, conduzida por neuropsicólogo, amplia esse trabalho. Além das dificuldades cognitivas, considera a funcionalidade no dia a dia e as alterações emocionais e comportamentais relacionadas ao quadro.
Também pode incluir estratégias para o manejo dessas alterações, ensinadas tanto ao paciente quanto aos familiares e cuidadores, com o objetivo de facilitar a adaptação às mudanças e melhorar a qualidade de vida.
O que os estudos mostram?
Pesquisas indicam que programas de treino cognitivo podem melhorar o desempenho em algumas das habilidades que são exercitadas, como memória, raciocínio e determinadas funções executivas. Os resultados variam de acordo com o tipo de atividade, a frequência, as características de cada pessoa e a forma como o treinamento é realizado.
Uma revisão sistemática publicada em 2021 reuniu 26 estudos sobre intervenções cognitivas e educativas com adultos maduros e pessoas idosas. Em 18 deles foram observadas melhoras na qualidade de vida, no bem-estar psicológico ou na cognição.
Jogos, palavras cruzadas, atividades de memória, desafios de raciocínio e outras propostas podem ser boas formas de exercitar a mente, principalmente quando despertam interesse e oferecem algum nível de desafio.
Uma pesquisa liderada pela professora Thais Bento Lima-Silva, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), acompanhou 207 pessoas idosas sem comprometimento cognitivo durante 24 meses. O programa utilizou diferentes atividades, entre elas jogos de cartas e de tabuleiro, exercícios com lápis e papel, ábaco e jogos cognitivos em plataforma digital. Os resultados indicaram benefícios em funções executivas, além de melhora na percepção da qualidade de vida e redução de sintomas depressivos no grupo que participou da estimulação cognitiva.
Diferentes formas de exercitar a mente
Existem muitas formas de manter a mente ativa ao longo do envelhecimento. Algumas podem ser inseridas no cotidiano, enquanto outras são realizadas por meio de programas estruturados, como a estimulação cognitiva e o treino cognitivo.
As diretrizes da Organização Mundial da Saúde incluem o treino cognitivo e a estimulação cognitiva entre as estratégias que podem contribuir para a redução do risco de declínio cognitivo e demência.
Ao mesmo tempo, cuidar da saúde do cérebro envolve um conjunto mais amplo de fatores. Manter-se fisicamente ativo, cultivar relações sociais, cuidar da alimentação, não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool e acompanhar condições como pressão alta, diabetes e colesterol elevado também são cuidados importantes. A saúde auditiva também merece atenção. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a perda auditiva não tratada aumenta o risco de desenvolver demência e acelera o declínio cognitivo.
Ideias para manter a mente ativa no dia a dia
Não existe uma única atividade ideal. O mais interessante é encontrar opções que ofereçam algum desafio e, ao mesmo tempo, sejam agradáveis e façam sentido para cada pessoa.
Algumas possibilidades são:
aprender uma receita, um idioma, um instrumento, uma atividade manual ou uma habilidade digital.
ler livros, jornais ou outros conteúdos de interesse.
conversar e trocar experiências com outras pessoas.
jogar dominó, cartas, xadrez, palavras cruzadas, quebra-cabeças ou jogos de estratégia.
experimentar jogos de memória, atenção, raciocínio ou planejamento.
participar de atividades culturais, grupos, cursos ou projetos comunitários.
escrever, desenhar, fotografar, cozinhar ou desenvolver outros interesses.
experimentar atividades diferentes das habituais.
Mais importante do que buscar um exercício “perfeito” é encontrar atividades que despertem interesse e possam ser incorporadas à rotina.
Envelhecer não significa deixar de aprender
Uma ideia que merece ser questionada é a de que, depois de determinada idade, a pessoa deixa de aprender ou desenvolver novas habilidades.
O cérebro mantém, ao longo da vida, a capacidade de se adaptar e se reorganizar em resposta às experiências e aprendizagens. Essa capacidade é chamada de plasticidade cerebral. Com o envelhecimento, ela pode acontecer de maneira diferente e algumas aprendizagens podem exigir mais tempo e prática, mas isso não significa que a capacidade de aprender desapareça.
Um estudo publicado em 2026, conduzido por Becca Levy e Martin Slade, acompanhou mais de 11 mil pessoas com 65 anos ou mais. Aproximadamente 45% apresentaram melhora na função cognitiva, física ou em ambas durante o período analisado.
Isso não significa que o envelhecimento não traga mudanças. Os resultados ajudam a mostrar que as trajetórias são diversas e não podem ser resumidas apenas à ideia de declínio.
Pesquisas da psicóloga Becca Levy também mostram associações entre as crenças sobre o envelhecimento e diferentes aspectos da saúde e do funcionamento cognitivo.
Estereótipos como “estou velho demais para aprender” ou “depois de certa idade só piora” não correspondem à diversidade das experiências de envelhecimento e podem limitar interesses, escolhas e novas experiências.
Cada pessoa envelhece de uma maneira, com sua história, condições de saúde, interesses, dificuldades e possibilidades.
Quando uma mudança na memória merece atenção?
Esquecer alguma coisa ocasionalmente acontece em qualquer idade. É diferente de apresentar mudanças frequentes que começam a comprometer atividades que antes eram realizadas normalmente.
Vale procurar avaliação profissional quando surgirem situações como:
fazer repetidamente as mesmas perguntas.
perder-se em lugares conhecidos.
apresentar dificuldade crescente para acompanhar instruções ou realizar tarefas familiares.
ter dificuldade frequente para administrar atividades cotidianas que antes eram realizadas sem problemas.
apresentar mudanças de memória ou raciocínio que estejam piorando ou preocupando a própria pessoa ou quem convive com ela.
Alterações cognitivas também podem estar relacionadas ao sono, ao uso de medicamentos e a condições como ansiedade e depressão. Por isso, investigar a causa é mais adequado do que simplesmente concluir que algo aconteceu “por causa da idade”.
Para concluir
Manter a mente ativa é uma forma importante de cuidar da saúde cognitiva ao longo do envelhecimento. Jogos, novas aprendizagens, atividades sociais, atividades físicas e outros desafios do dia a dia podem ajudar a exercitar diferentes habilidades cognitivas e contribuir para a redução do risco de declínio cognitivo.
O mais importante é escolher atividades que despertem interesse, ofereçam algum desafio e façam sentido para a rotina de cada pessoa.
Quando já existem sinais de comprometimento cognitivo, é importante buscar um profissional especializado para realizar uma avaliação adequada e definir a intervenção mais indicada para cada caso.
Referências
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SILVA, Thais Bento Lima da et al. Intervenções cognitivas em adultos maduros e idosos, benefícios ao bem-estar psicológico e à qualidade de vida: um estudo de revisão sistemática. Dementia & Neuropsychologia, v. 15, n. 4, p. 428–439, 2021.
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YOKOMIZO, Juliana Emy; SARAN, Laura Ferreira; FACHIN, Raquel de Vargas Penteado; OLIVEIRA, Graça Maria Ramos de. Estimulação cognitiva de idosos. Barueri, SP: Manole, 2020.