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Estimulação Cognitiva em idosos: Como Manter a Mente Ativa

Casal de idosos jogando xadrez como atividade de estimulação cognitiva.

O envelhecimento pode trazer algumas mudanças na nossa cognição. Algumas pessoas, por exemplo, percebem que precisam de um pouco mais de tempo para recordar um nome, lembrar onde colocaram as chaves ou organizar uma informação. Isso pode ocorrer no envelhecimento normal e não significa, por si só, que exista um problema de saúde.

Ao mesmo tempo, nem toda dificuldade cognitiva deve ser atribuída à idade. Quando mudanças na memória, na atenção ou em outras habilidades começam a interferir de forma frequente na rotina e na autonomia, é importante procurar avaliação profissional.

O que é cognição?

Cognição é o conjunto de habilidades que usamos para compreender informações, aprender, lembrar, tomar decisões e realizar as atividades do dia a dia.

Entre elas estão:

  • memória, que nos ajuda a registrar e recuperar informações e experiências.

  • atenção, necessária para manter o foco e selecionar o que é importante.

  • linguagem, utilizada para compreender e expressar ideias.

  • raciocínio, que ajuda a compreender situações e encontrar soluções.

  • funções executivas, envolvidas no planejamento, na organização, na tomada de decisões e na adaptação diante de situações novas.

Essas habilidades trabalham juntas constantemente. Preparar uma refeição, organizar compromissos, conversar, jogar cartas, aprender a usar um aplicativo ou planejar uma viagem são exemplos de situações que envolvem diferentes funções cognitivas.

Estimulação cognitiva e treino cognitivo: qual é a diferença?

A estimulação cognitiva é um conceito amplo e envolve atividades que mobilizam diferentes habilidades mentais. Pode acontecer por meio da leitura, de conversas, jogos, atividades artísticas, novas aprendizagens e outros desafios presentes no cotidiano.

Já o treino cognitivo é mais estruturado. Utiliza exercícios planejados e repetidos para trabalhar determinadas habilidades, como memória, atenção, raciocínio ou planejamento.

Na prática, estimular a mente não precisa significar cumprir uma rotina rígida de exercícios. Atividades que despertam interesse, curiosidade e algum desafio podem ser incorporadas ao cotidiano de maneira natural e prazerosa.

O que os estudos mostram?

Pesquisas indicam que programas de treino cognitivo podem melhorar o desempenho em algumas das habilidades que são exercitadas, como memória, raciocínio e determinadas funções executivas. Os resultados variam de acordo com o tipo de atividade, a frequência, as características de cada pessoa e a forma como o treinamento é realizado.

Uma revisão sistemática publicada em 2021 reuniu 26 estudos sobre intervenções cognitivas e educativas com adultos maduros e pessoas idosas. Em 18 deles foram observadas melhoras na qualidade de vida, no bem-estar psicológico ou na cognição.

Jogos, palavras cruzadas, atividades de memória, desafios de raciocínio e outras propostas podem ser boas formas de estimulação cognitiva, principalmente quando despertam interesse e oferecem algum nível de desafio.

Uma pesquisa liderada pela professora Thais Bento Lima-Silva, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), acompanhou 207 pessoas idosas sem comprometimento cognitivo durante 24 meses. O programa utilizou diferentes atividades, entre elas jogos de cartas e de tabuleiro, exercícios com lápis e papel, ábaco e jogos cognitivos em plataforma digital. Os resultados indicaram benefícios em funções executivas, além de melhora na percepção da qualidade de vida e redução de sintomas depressivos no grupo que participou da estimulação cognitiva.

Diferentes formas de estimular a mente

A estimulação cognitiva pode acontecer de muitas maneiras. As orientações mais recentes da Organização Mundial da Saúde incluem o treino e a estimulação cognitiva entre as estratégias que podem contribuir para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência.

Ao mesmo tempo, cuidar da saúde do cérebro envolve um conjunto mais amplo de fatores. Manter-se fisicamente ativo, cultivar relações sociais, cuidar da alimentação, não fumar, evitar o consumo prejudicial de álcool e acompanhar condições como pressão alta, diabetes e colesterol elevado também são cuidados importantes. A saúde auditiva merece atenção, especialmente quando existe perda de audição.

Por isso, manter a mente ativa pode envolver tanto resolver uma palavra cruzada ou aprender um novo jogo quanto caminhar, conversar com amigos, participar de atividades em grupo ou descobrir um novo interesse.

Ideias para estimular a mente no dia a dia

Não existe uma única atividade ideal. O mais interessante é encontrar opções que ofereçam algum desafio e, ao mesmo tempo, sejam agradáveis e façam sentido para cada pessoa.

Algumas possibilidades são:

  • aprender uma receita, um idioma, um instrumento, uma atividade manual ou uma habilidade digital.

  • ler livros, jornais ou outros conteúdos de interesse.

  • conversar e trocar experiências com outras pessoas.

  • jogar dominó, cartas, xadrez, palavras cruzadas, quebra-cabeças ou jogos de estratégia.

  • experimentar jogos de memória, atenção, raciocínio ou planejamento.

  • participar de atividades culturais, grupos, cursos ou projetos comunitários.

  • escrever, desenhar, fotografar, cozinhar ou desenvolver outros interesses.

  • experimentar atividades diferentes das habituais.

Mais importante do que buscar um exercício “perfeito” é encontrar atividades que despertem interesse e possam ser incorporadas à rotina.

Envelhecer não significa deixar de aprender

Uma ideia que merece ser questionada é a de que, depois de determinada idade, a pessoa deixa de aprender ou desenvolver novas habilidades.

O cérebro mantém, ao longo da vida, a capacidade de se adaptar e se reorganizar em resposta às experiências e aprendizagens. Essa capacidade é chamada de plasticidade cerebral. Com o envelhecimento, ela pode acontecer de maneira diferente e algumas aprendizagens podem exigir mais tempo e prática, mas isso não significa que a capacidade de aprender desapareça.

Um estudo publicado em 2026, conduzido por Becca Levy e Martin Slade, acompanhou mais de 11 mil pessoas com 65 anos ou mais. Aproximadamente 45% apresentaram melhora na função cognitiva, física ou em ambas durante o período analisado.

Isso não significa que o envelhecimento não traga mudanças. Os resultados ajudam a mostrar que as trajetórias são diversas e não podem ser resumidas apenas à ideia de declínio.

Pesquisas da psicóloga Becca Levy também mostram associações entre as crenças sobre o envelhecimento e diferentes aspectos da saúde e do funcionamento cognitivo. Estereótipos como “estou velho demais para aprender” ou “depois de certa idade só piora” não correspondem à diversidade das experiências de envelhecimento e podem limitar interesses, escolhas e novas experiências.

Cada pessoa envelhece de uma maneira, com sua história, condições de saúde, interesses, dificuldades e possibilidades.

Quando uma mudança na memória merece atenção?

Esquecer alguma coisa ocasionalmente acontece em qualquer idade. É diferente de apresentar mudanças frequentes que começam a comprometer atividades que antes eram realizadas normalmente.

Vale procurar avaliação profissional quando surgirem situações como:

  • fazer repetidamente as mesmas perguntas.

  • perder-se em lugares conhecidos.

  • apresentar dificuldade crescente para acompanhar instruções ou realizar tarefas familiares.

  • ter dificuldade frequente para administrar atividades cotidianas que antes eram realizadas sem problemas.

  • apresentar mudanças de memória ou raciocínio que estejam piorando ou preocupando a própria pessoa ou quem convive com ela.

Alterações cognitivas também podem estar relacionadas ao sono, ao uso de medicamentos e a condições como ansiedade e depressão. Por isso, investigar a causa é mais adequado do que simplesmente concluir que algo aconteceu “por causa da idade”.

Para lembrar

Cuidar da saúde cognitiva não precisa se transformar em uma busca constante por desempenho. Jogos, novas aprendizagens, atividades sociais, movimento, curiosidade e cuidados com a saúde podem contribuir, cada um à sua maneira, para uma vida mentalmente ativa.

O mais importante é encontrar atividades que tenham significado, despertem interesse e tragam oportunidades de aprender, pensar, criar e se relacionar.

Referências

LEVY, Becca. A coragem de envelhecer: a ciência de viver mais e melhor. Tradução de Cláudio Carina. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2022.

YOKOMIZO, Juliana Emy; SARAN, Laura Ferreira; FACHIN, Raquel de Vargas Penteado; OLIVEIRA, Graça Maria Ramos de. Estimulação cognitiva de idosos. Barueri, SP: Manole, 2020.

CAIXETA, Leonardo; TEIXEIRA, Antônio Lúcio (orgs.). Neuropsicologia geriátrica: neuropsiquiatria cognitiva em idosos. Porto Alegre: Artmed, 2014.

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SILVA, Thais Bento Lima da et al. Intervenções cognitivas em adultos maduros e idosos, benefícios ao bem-estar psicológico e à qualidade de vida: um estudo de revisão sistemática. Dementia & Neuropsychologia, v. 15, n. 4, p. 428–439, 2021. DOI: 10.1590/1980-57642021dn15-040002.

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SILVA, Thais Bento Lima da et al. SUPERA® Cognitive Stimulation Study: effectiveness of a multi-component cognitive stimulation program for cognitively unimpaired older adults: a randomized controlled clinical trial. International Psychogeriatrics, 2026, art. 100178. DOI: 10.1016/j.inpsyc.2025.100178.

LEVY, Becca R.; SLADE, Martin D. Aging Redefined: Cognitive and Physical Improvement with Positive Age Beliefs. Geriatrics, v. 11, n. 2, art. 28, 2026. DOI: 10.3390/geriatrics11020028.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines. 2. ed. Geneva: World Health Organization, 2026.