1. O que é o luto?
O luto é uma resposta natural diante da perda de alguém ou de algo importante. Ele pode surgir após a morte de uma pessoa querida, mas também com o fim de um relacionamento, a perda da saúde ou do trabalho e outras mudanças significativas na vida.
Esse processo pode afetar as emoções, os pensamentos, o corpo e a rotina. Tristeza, saudade, raiva, culpa, medo e confusão são algumas das reações possíveis.
Cada pessoa vivencia a perda de uma maneira, e a intensidade dos sentimentos pode variar ao longo do tempo. A forma como cada um atravessa esse processo pode ser influenciada pelo vínculo com aquilo que foi perdido, pelas circunstâncias da perda, pela história de vida e pelo apoio disponível naquele momento.
2. Como compreender as diferentes reações ao luto
As chamadas fases do luto, descritas por Elisabeth Kübler-Ross, ajudam a compreender algumas reações que podem surgir após uma perda. No entanto, elas não acontecem necessariamente nessa ordem, e nem todas as pessoas passam por todas elas.
Negação: dificuldade para acreditar ou assimilar o que aconteceu.
Raiva: irritação, revolta ou sensação de injustiça diante da perda.
Barganha: pensamentos sobre o que poderia ter sido feito de outra maneira ou tentativas de imaginar como a perda poderia ter sido evitada.
Depressão: no contexto desse modelo, refere-se à sensação de vazio, desânimo, saudade e menor interesse por algumas atividades, não significando necessariamente um diagnóstico de depressão.
Aceitação: não significa esquecer, deixar de sentir saudade ou considerar a perda resolvida. Refere-se à adaptação gradual à nova realidade e à possibilidade de reorganizar a vida apesar da ausência.
Essas reações podem se misturar, desaparecer e voltar em outros momentos. Por isso, o luto não deve ser entendido como uma sequência obrigatória.
3. Quais reações podem surgir durante o luto?
tristeza, saudade, irritação, culpa ou ansiedade;
cansaço e falta de energia;
dificuldade de concentração;
alterações no sono ou no apetite;
tensão muscular e dores no corpo;
menor interesse por algumas atividades;
vontade de se afastar das pessoas;
sensação de confusão ou falta de direção.
Nem todas essas reações estarão presentes, e elas podem mudar ao longo do tempo.
A intensidade e a duração dessas experiências variam de pessoa para pessoa e podem estar relacionadas à história de vida, ao vínculo com aquilo que foi perdido, às circunstâncias da perda e ao apoio disponível.
4. Perdas e mudanças ao longo do envelhecimento
Ao longo da vida, diferentes perdas e mudanças podem acontecer e, em alguns períodos, podem ocorrer de maneira relativamente próxima.
Além da morte de pessoas queridas, podem surgir mudanças relacionadas à saúde, à autonomia, à aposentadoria, aos vínculos sociais ou aos papéis ocupados na família e no trabalho.
Quando diferentes perdas se acumulam ou se sobrepõem, o processo de adaptação pode se tornar mais difícil para algumas pessoas.
A viuvez, por exemplo, pode modificar profundamente a rotina, os papéis dentro de casa, os vínculos sociais e a maneira como a pessoa organiza sua vida, especialmente depois de muitos anos de convivência.
Também é importante desfazer uma ideia comum: envelhecer não significa estar automaticamente mais preparado para perder pessoas importantes.
Ter vivido outras perdas não torna uma nova perda necessariamente mais fácil. Cada vínculo possui uma história própria, e experiências anteriores podem influenciar de diferentes maneiras a forma como cada pessoa enfrenta um novo luto.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas mais velhas desenvolveram, ao longo da vida, recursos, vínculos e estratégias de enfrentamento que podem ajudá-las a atravessar momentos difíceis.
O importante é que exista espaço para viver e elaborar a perda sem a obrigação de "superá-la" rapidamente.
5. Apoio e cuidado durante o luto
Não existe uma única forma de lidar com a perda. Algumas atitudes podem ajudar durante esse processo:
conversar com uma pessoa próxima;
permitir-se sentir sem se julgar;
manter pequenas rotinas de sono, alimentação e cuidado pessoal;
realizar atividades que proporcionem algum conforto ou bem-estar;
escrever sobre pensamentos e sentimentos;
recordar ou homenagear a pessoa ou aquilo que foi perdido;
preservar vínculos importantes;
pedir ajuda quando estiver difícil enfrentar esse momento.
Cada pessoa vivencia uma perda de maneira particular, e tanto o tempo quanto a forma de se adaptar podem variar.
Também é possível que sentimentos e lembranças relacionados à perda estejam mais presentes em determinados momentos, como aniversários, datas comemorativas ou situações que despertem recordações.
O mais importante é respeitar as próprias emoções, sem se comparar com outras pessoas ou se cobrar para sentir ou agir de determinada maneira, e compreender que ter momentos de alívio, sorrir ou voltar a sentir prazer não significa esquecer ou se importar menos.
6. Quando buscar ajuda psicológica?
Tristeza, saudade e sofrimento emocional podem fazer parte do processo de luto e, por si só, não significam que exista um transtorno psicológico.
Ainda assim, não é preciso esperar que o sofrimento se torne insuportável para buscar apoio. A psicoterapia pode ser procurada em diferentes momentos do processo de luto, inclusive quando a pessoa sente necessidade de ter um espaço para falar e compreender melhor o que está vivendo.
O acompanhamento de uma psicóloga pode ser especialmente importante quando houver:
dificuldade persistente para realizar atividades do dia a dia;
isolamento social prolongado;
culpa muito intensa;
sensação persistente de desesperança;
alterações importantes no sono ou na alimentação;
uso frequente de álcool ou outras substâncias como forma de lidar com a dor;
dificuldade significativa para retomar aspectos importantes da vida;
sensação de não conseguir lidar com a perda sem apoio.
A psicoterapia pode oferecer um espaço de acolhimento para compreender emoções, reorganizar experiências e encontrar maneiras de atravessar esse momento respeitando a própria história e o próprio tempo.
Buscar ajuda não significa esquecer ou deixar de sentir a perda.
Você não precisa enfrentar o luto sem apoio. Esse é um processo único e desafiador, mas isso não significa que precise ser solitário. Permita-se sentir, acolher suas emoções e, sempre que precisar, busque apoio.
Referências
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing, 2022.
Kübler-Ross, E. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes.
SILVA, Maria das Dores Ferreira da; FERREIRA-ALVES, José. O luto em adultos idosos: natureza do desafio individual e das variáveis contextuais em diferentes modelos. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 25, n. 3, p. 588-595, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-79722012000300019.