Ansiedade e envelhecimento: entenda os sinais e saiba quando buscar ajuda

Com o envelhecimento, a ansiedade pode mudar e se manifestar de forma diferente. Veja os principais sinais de alerta e saiba quando buscar ajuda profissional.

Bruna Fialho

O que é a ansiedade?

A ansiedade é uma emoção natural, que todos nós podemos sentir em algum momento da vida. Ela costuma surgir quando antecipamos uma possível ameaça ou nos preocupamos com algo que ainda vai acontecer, como uma consulta médica, uma mudança importante na rotina ou uma conversa difícil.

Muitas vezes, não é apenas a situação em si que provoca ansiedade, mas a forma como interpretamos o que pode acontecer. Por isso, duas pessoas podem viver a mesma experiência e sentir níveis de ansiedade bem diferentes.

O que importa observar é a intensidade, a duração e o impacto que a ansiedade causa na vida de cada um. Quando ela se torna persistente ou desproporcional à situação e passa a interferir na rotina, pode ser o momento de buscar apoio profissional.

Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), os transtornos de ansiedade têm em comum um medo ou uma ansiedade em grau excessivo, junto com mudanças no comportamento que decorrem disso, podendo esse medo surgir diante de uma ameaça real ou apenas imaginada. Entre os principais estão o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno de ansiedade social (fobia social), a fobia específica, a agorafobia e o transtorno do pânico. Cada um tem particularidades próprias, mas todos compartilham a mesma base: um medo ou uma ansiedade excessiva que, quando persistente, passa a interferir na vida da pessoa.

Por que a ansiedade pode mudar com o envelhecimento?

Com o passar dos anos, a vida costuma trazer uma série de mudanças que podem intensificar a ansiedade ou revelar uma dificuldade que já existia de forma mais discreta. Aposentadoria, filhos que saem de casa, cuidado com pais idosos, perdas de pessoas próximas, alterações hormonais e mudanças no corpo são vivências comuns nesse momento da vida e podem funcionar como gatilhos importantes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, depressão e ansiedade estão entre as condições de saúde mental mais comuns entre pessoas com 60 anos ou mais, e seguem frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas, em parte pelo estigma que ainda existe em torno do tema. No Brasil, um estudo de base populacional conduzido por Machado e colaboradores (2016) encontrou uma prevalência de transtorno de ansiedade generalizada de 22% entre idosos. Outros pesquisadores, como Nardi, Grassi-Oliveira e Pádua (2016), apontam esse transtorno como um dos quadros de ansiedade mais frequentes nessa fase da vida.

Vale reforçar um ponto importante: sentir mais ansiedade não é uma consequência inevitável de envelhecer. Ansiedade e depressão não são "normais" da idade, mesmo sendo frequentes nessa fase. Elas merecem cuidado e tratamento como em qualquer outro momento da vida.

Outro dado relevante é que, com o envelhecimento, a ansiedade pode se apresentar de maneira mais marcada por sintomas físicos, como palpitação, tontura ou desconforto digestivo, e nem sempre a preocupação é relatada de forma direta. Isso dificulta o reconhecimento do problema e pode levar a exames repetidos sem uma causa médica encontrada. Esse padrão foi um dos motivos que levaram pesquisadores a desenvolver instrumentos específicos para avaliar ansiedade em pessoas mais velhas, como o Inventário de Ansiedade Geriátrica, criado por Pachana e colaboradores em 2007 e já validado também em português.

Sinais de alerta

Entre os sinais mais comuns de ansiedade estão:

  • preocupação frequente ou difícil de controlar

  • sensação de que algo ruim pode acontecer

  • dificuldade para relaxar, dormir ou se concentrar

  • irritação, inquietação ou tensão

  • coração acelerado, falta de ar, tremores, suor ou tontura

  • tensão muscular, dor de cabeça ou desconforto no estômago

  • momentos repentinos de medo intenso ou sensação de perder o controle

  • medo de sair sozinho ou de ficar em lugares onde pareça difícil ir embora ou pedir ajuda

  • medo de conversar ou participar de situações sociais por receio de ser observado ou julgado

  • deixar de realizar atividades importantes por medo ou preocupação

Ao longo do envelhecimento, também podem surgir sinais como:

  • medo intenso de cair (ptofobia), mesmo sem uma queda recente, o que pode levar a evitar caminhar ou sair de casa

  • preocupação excessiva com a própria saúde ou com pequenos esquecimentos do dia a dia

  • receio constante de passar mal longe de casa ou de não conseguir ajuda a tempo

Alguns desses sintomas também podem estar relacionados a outras condições de saúde. Sintomas como dor no peito, falta de ar intensa ou desmaio sempre precisam de avaliação médica antes de qualquer outra conclusão.

O que pode ajudar no dia a dia?

Alguns cuidados podem contribuir para reduzir a ansiedade e melhorar o bem-estar:

  • Organizar a rotina: anotar compromissos em uma agenda, definir prioridades e realizar uma atividade de cada vez ajuda a diminuir a sensação de sobrecarga.

  • Praticar atividade física: caminhar, dançar, nadar, pedalar, alongar-se ou fazer exercícios de força e equilíbrio, respeitando os limites do corpo, ajuda a aliviar a tensão. Exercícios de força e de equilíbrio, em especial, também contribuem para reduzir o risco de quedas.

  • Fazer exercícios de respiração: inspire e expire prestando atenção ao movimento do ar, sem forçar ou prender a respiração.

  • Praticar meditação ou atenção plena: voltar a atenção para o momento presente ajuda a observar os pensamentos sem se prender tanto a eles.

  • Cuidar do sono: manter horários regulares e reduzir estímulos antes de dormir favorece o descanso.

  • Manter a vida social ativa: segundo a OMS, a solidão e o isolamento social podem afetar significativamente a saúde mental das pessoas mais velhas. Manter contato com amigos, familiares ou grupos de convivência pode contribuir para o bem-estar emocional.

  • Observar o consumo de estimulantes: café, chá-mate e energéticos podem aumentar a agitação e prejudicar o sono em algumas pessoas.

  • Conversar com alguém de confiança: compartilhar preocupações traz acolhimento e apoio.

  • Diminuir o excesso de notícias e redes sociais: limitar conteúdos que aumentam a preocupação ajuda a preservar o bem-estar.

Não é necessário fazer tudo ao mesmo tempo. Cada pessoa pode começar pelos cuidados que fizerem mais sentido para sua rotina e seu momento de vida.

Essas práticas ajudam, mas não substituem o acompanhamento profissional quando a ansiedade é intensa, persistente ou interfere nas atividades do dia a dia.

Quando e como buscar ajuda

A psicoterapia, especialmente abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, ajuda a compreender os pensamentos, os medos e as situações que aumentam a ansiedade. Durante as sessões, é possível aprender estratégias para lidar com situações difíceis, rever crenças sobre o envelhecimento e retomar atividades que foram evitadas ou deixadas de lado.

Em alguns casos, medicamentos também podem ser indicados por um médico, após avaliação individual. O tratamento deve considerar os sintomas, o histórico de saúde e as necessidades de cada pessoa, especialmente quando há outras condições clínicas ou uso de múltiplos medicamentos, algo cada vez mais comum com o passar dos anos.

Buscar ajuda é importante quando a ansiedade causa sofrimento frequente ou faz com que você deixe de sair, encontrar pessoas ou realizar atividades importantes. Não é preciso esperar a ansiedade se tornar insuportável para procurar apoio.

Pedir ajuda é uma forma de cuidado, em qualquer idade. Com apoio adequado, é possível compreender melhor a ansiedade, aprender a lidar com ela e seguir em frente com mais equilíbrio e bem-estar.

Referências

American Psychiatric Association, "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR", Artmed, 2023;

Organização Mundial da Saúde, "Mental health of older adults" (2023); Machado MB e colaboradores, "Prevalência de transtornos ansiosos e algumas comorbidades em idosos: um estudo de base populacional", Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 2016;

Pachana NA e colaboradores, "Development and validation of the Geriatric Anxiety Inventory", International Psychogeriatrics, 2007; Paulo DLV, Yassuda MS, "Queixas de memória de idosos e sua relação com escolaridade, desempenho cognitivo e sintomas de depressão e ansiedade", Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 2010.